MAR NOVO

     
 

 

Heróis. Assim devíamos chamar nossos pescadores mais antigos. Heróis de infinitos contratempos à que se expunham para trabalhar, se deslocar, enfim, para viver. Hoje, quando vemos pescadores ao mar, dificilmente podemos imaginar o que era comum há apenas alguns anos. Ninguém mais pratica a pesca de Mar Novo da forma como era praticada antigamente. O que é uma boa notícia, frente à realidade estúpida do dia-a-dia desse tipo de pesca.

Todos os pescadores de Búzios com mais de sessenta anos de idade e que optaram por pescar em barcos grandes, que saíam do Rio, experimentaram a pesca de Mar Novo. E quase todas as famílias têm histórias de parentes que morreram devido a essa prática.

A pescaria de Mar Novo era tão simples quanto arriscada. Um barco grande partia em direção a alto mar, carregado de caícos (botes à remo) empilhados. Após seguirem em média três dias, sem avistar nem um sinal do continente, os barcos eram lançados n’água e em cada um ia um homem. O pescador permanecia sozinho em seu caíco, pescando de linha o dia inteiro. Chovesse ou fizesse sol, ele estava ali, pescando. Ao final do dia o barco grande vinha e recolhia todo mundo.

O perigo era estar sozinho, em alto mar, sujeito a tudo o que pode acontecer em alto mar. Peixes grandes por vezes arrastavam os caícos, tempestades viravam os botes e ondas gigantes os engoliam. Por incrível que pareça, muitos pescadores não sabiam nadar e pouco podia ser feito caso caíssem no mar. Os botes ficavam tão longe uns dos outros, que eles nem avistavam os companheiros. Em cada caíco apenas o pescador e sua fé em voltar para sua família. Por isso não é exagero chamá-los de heróis. Esses homens passaram trinta, quarenta anos de sua vidas pescando assim, e conseguiram voltar para suas famílias. E este era o prêmio maior que conseguiam conquistar. O sabor prazeroso de voltar para suas famílias.

A seguir reproduzimos alguns depoimentos de pescadores tradicionais de Búzios, que passaram pela realidade do Mar Novo.



Possidônio Henrique Gonçalves - in memoriam

O Mar Novo era de anzol. Era pesca muito perigosa, morreu muito pescador de Búzios lá. Desapareceu até hoje ninguém sabe. Morreu muito mesmo.

Era de anzol, botava a isca e jogava, eram uns vinte anzóis, tudo pequenininho assim, aquela carreira. Aí deixava, ficava lá vendo eles batendo, dava um pouco de linha pra eles afirmar no anzol. Depois que afirmava a gente dava um tempozinho e puxava. Vinha quinze, dez, vinte, doze, era namorado, cherne e batata.

Teve um naufrágio com a gente. Nós ia morrendo todos. Morreu um, que não resistiu nadar. Tava esse, eu e Juarez, caiu nós três dentro d’água. O mar atirou nós, a força da onda do mar invadiu o barco, botou logo o barco no fundo. Ficou meio barco no fundo e meio barco ficou viajando, devagarinho, devagarinho... o pessoal a bordo todo apavorado, procurando a gente, não sabiam que nós estávamos todos dentro d’água. Aí já escureceu tudo, ficou tudo escuro, não enxergava nada, a gente ficou nadando lá, eu e esse rapaz. O outro desapareceu. Ficou eu e o Juarez nadando... por casualidade, não sei o que foi, não sei se foi a maré, trouxe o barco em cima da gente. Direitinho em cima da gente. Aí jogaram a retinida, a retinida é um cabo grosso com uma pinha na ponta, grossa assim, amarrada, que jogava pra gente segurar. Jogaram pra mim, pra eu segurar, mas eu não tive força para segurar. Já estava descendo. Foi quando veio este Saulo, que trabalhava com a gente e foi criado com a gente aqui em Búzios, e me segurou pela cabeça, assim pelo cabelo, me segurou na borda do bote, aí eu me agarrei no bote e foi como eu me salvei.



Anastácio Costa, 94 anos – in memoriam

Ai meu filho, pesquei muito no Mar Novo. Eu saía daqui, fazia rumo aqui de Vitória para sueste, andava três dias e duas noites mar adentro.

Todo mundo deixou porque a vida não é boa não, a vida mais ruim que tem é a vida do Mar Novo. A vida mais peste é a vida do Mar Novo. Hoje em dia mais ninguém trabalha no Mar Novo.



Moacir Pereira da Costa, 77 anos

Cada um num caíco. O barco leva os caícos né? Eu trabalhei com dezoito botes, vinte. Barco de vinte caíco, com tudo empilhado um no outro aí chega lá solta a gente no meio do mar pra pescar. Cada um num bote, mas era assim. Perigoso era muito. Quando caía um tempo de repente, que a gente se via em perigo era muito arriscado mesmo. Eu só perdi um companheiro no mar que sumiu. Ele pegou uma vaga de mar e o mar afundou ele com bote e tudo. O caíco que ele estava pescando sumiu. Só encontraram o remo aboiado e a caixeta de aparelho. Ele sumiu

de fundo adiante e eu quase que fui também.



Oscar Lopes de Souza, 75 anos

Trabalhar no Mar Novo era o seguinte: nós saía daqui do Rio, chegava lá carregava o barco e tal e marcava um dia pra gente sair. Carregava hoje pra sair amanhã. Aí na parte da manhã lá pelas oito horas nós partia. Nós andava três dias e três noites. O barco andando né? Quando chegava lá, se pegava contra-tempo ficava todo mundo dentro do barco grande, ninguém arriava. Aí ficava três, quatro dias, a gente tratava de capa. Quando o tempo melhorava, a gente começava a trabalhar nos caícos pequenos. Eu ia num caíco, cada um ia num caíco, ficava três no barco grande o resto todo espalhado pelo mar. Começava cinco horas da manhã, quando chegava onze horas começava a dar almoço. Pegava o prato, era um bocado de comida outro bocado de água salgada no prato. O mar agitado, o pau quebrando, nós tamo aí...

Quando era cinco horas da tarde, o mestre metia a bandeira em cima, aí já sabia que era pra puxar. Aí puxava a carrinha, duas banda de linha de duzentas e poucas braças de fundura. Aí ia juntando os botes. Porque largava um aqui, outro lá e o barco não ficava fixo não. Era um prumuzinho deste tamanho. Nisso o bote ia saindo, nós largava vamos dizer assim, aqui, quando chegava na parte da tarde a gente tava quase chegando em Cabo Frio porque a maré ia levando. E pra falar a verdade faleceu muitos daqui de Búzios. Perdia o barco no fundo, vinha peixe grande e embaraçava na linha, levava o barco pro fundo, o camarada tava distante, botava eu aqui, botava outro ali, era tudo espalhado.



Pedro Hélio da Rocha, 74 anos

É a pesca mais difícil, quer dizer, é a pesca mais fácil e mais perigosa que tem. Essa pesca você fica só. E você fica o tempo todo dentro d’água, vento, chuva, tudo dentro d’água. Eu já salvei dois. O maior sufoco no mar foi quando eu me virei. Eu me virei mesmo perto do barco, tinha alguns colegas perto de mim, mas eu só pensava em morrer, só pensava em... a primeira coisa que eu pensei, vou dizer, mas com franqueza mesmo, foi nos meus filhos. Eu disse, ah, vou deixar meus filhos. Quando agarrava, já com pouco ânimo, tentando agarrar o barco... esperando o outro barco chegar... querendo me salvar. Até hoje eu falava muito isso pra minha mulher, pros meus filhos, sei lá, pensava muito nos filhos. Era muito aquele carinho que eu tinha com eles né? Tinha não, tenho até hoje. Ainda não me largaram, nenhum deles me largou ainda, vivem todos junto comigo. Tudo já homem, quarenta, trinta e tantos, outro quarenta e poucos... e vivo com eles. Então a única coisa que eu tenho a dizer é isso. Na hora que eu estava diante da morte, vou morrer, eu pensei neles, foi isso.

 
     
 
Notícia Publicada em: 04/08/2007

 

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